Mark Johnson inicialmente construiu uma instalação para a produção comercial de alface nas Filipinas, mas acabou desenvolvendo um sistema de bioflocos para criar camarão (Litopenaeus vannamei) em água doce com salinidade zero, um projeto que ele descreve como “único” no país.
Desafios na criação de camarões
A maioria dos profissionais da indústria alertou Johnson que o conceito de vannamei em água doce não funcionaria, apontando possíveis problemas como baixas taxas de sobrevivência, altas taxas de conversão alimentar (CA), casca mole, cor ruim e sabor desagradável. No entanto, Johnson encontrou apoio em Fabio Higa, um especialista em camarão no outro lado do mundo, do Brasil, que se tornou seu consultor.
Desde o início, Johnson teve uma visão voltada para o bioflocos. “A ideia de cultivo intensivo com zero troca de água era um conceito novo aqui nas Filipinas. Perguntei-me se poderia compensar as pequenas margens de lucro com uma grande biomassa”, disse ele ao meio especializado RASTECH.
Mudança de produção: das hortaliças para a aquicultura

A produção de vegetais folhosos foi substituída pela aquicultura devido à salinidade da água oriunda de poço profundo no local. Johnson recebeu sugestões para criar tilápia, que, embora tivesse um mercado, era vendida a preços baixos. Ele então considerou espécies de maior valor que poderiam ser cultivadas na água de poço com salinidade de cerca de 1.6 ppt, e o camarão vannamei parecia uma opção promissora.
Consultoria especializada e planejamento da fazenda
Com os conselhos de Higa, Johnson foi encorajado a seguir em frente. “Expliquei a ele que era muito possível criar camarões em água doce e que isso podia ser feito em níveis muito intensivos. Era possível cultivar vannamei em qualquer modelo, do extensivo ao intensivo, dependendo apenas da gestão e capacidade técnica”, afirmou Higa.
A fazenda, nomeada AM PONDS em homenagem a Mark e sua esposa Aveen, está localizada na província de Iloilo, em uma área de 6.5 hectares, próxima à estrada nacional e a cerca de 700 metros de um rio, fonte de água doce. O mercado mais próximo fica a apenas uma hora de distância.
Projeções da produção para 2024
As projeções para 2024 indicam que os tanques revestidos devem produzir nove toneladas de camarão e 30 toneladas por hectare de tilápia. Espera-se que os tanques de terra produzam entre três a cinco toneladas de camarão, com peso médio de 35 a 40 gramas, e entre dez a 15 toneladas por hectare de tilápia.
“A principal cultura será a tilápia, correspondendo ao volume típico de produção em monocultivo. Já o camarão vannamei será cultivado em menor quantidade, pois não iremos alimentá-los diretamente”, explicou Johnson. “A biomassa global estará acima da lotação típica de monocultivo em cerca de 30%.”
Vantagens do policultivo
O policultivo de camarão e tilápia permite maior competitividade no mercado, reduzindo os custos de produção da tilápia, que precisa competir com peixes capturados na natureza. “O policultivo com camarão reduz os custos de produção e isso faz sentido”, disse ele.
A combinação de espécies também é vantajosa do ponto de vista do crescimento. “Tilápias são filtradoras versáteis e um dos únicos peixes que consomem algas verde-azuladas, podendo coexistir com camarões que se alimentam no fundo. A tilápia consome microalgas, e o biofloco pode concentrar proteínas e lipídios importantes em seus resíduos, sendo um bom substituto da farinha de peixe para o vannamei.”
Johnson destacou ainda que a tilápia consome qualquer camarão doente, ajudando a controlar doenças causadas pelo canibalismo. Além disso, ao forragear e construir ninhos, a tilápia mantém o fundo arejado, prevenindo problemas com bactérias anaeróbias, o que contribui para um ambiente aquático mais limpo.
Instalações e desafios operacionais
A fazenda conta com quatro viveiros alinhados, cada um com cerca de 1.500 metros cúbicos, além de reservatórios de 4.000 m² e cinco viveiros de terra com 30.000 m². Tanques redondos de concreto e PVC são utilizados para a aclimatação de larvas de água doce.
Iniciar na aquicultura foi um grande desafio para Johnson, um executivo de BPO recentemente aposentado. Ele teve que lidar com a produção de água salgada para os tanques de aclimatação das larvas de vannamei. Utilizando os protocolos de Higa, os sais artificiais funcionaram, mas os sais locais nas Filipinas continham aditivos tóxicos para as larvas. A solução foi coletar água diretamente do mar.
Aclimatação e alimentação das larvas
A agressividade das larvas de vannamei nas Filipinas também foi um problema. A aclimatação em viveiros confinados resultava em canibalismo entre as larvas, com uma taxa média de sobrevivência de 50 a 60%, alcançando até 85% no melhor cenário.
Para minimizar o tempo das larvas no viveiro e reduzir a densidade antes da transferência, Johnson começou a usar zooplâncton vivo para alimentação, resolvendo problemas de canibalismo. No segundo trimestre de 2024, a transição para 100% de zooplâncton vivo durante a aclimatação das larvas eliminou problemas anteriores.
Monitoramento do nitrogênio e sustentabilidade
O sistema de recirculação de água exige monitoramento constante de nitrogênio, com nutrientes e sólidos acumulando-se ao longo do tempo. O uso de probióticos e aeração diária ajudam a manter a água com um tom marrom/verde adequado. “No último ano, a falta de entendimento dessa dinâmica causou perdas de camarões”, revelou Johnson.
Durante o verão, o acúmulo de lodo é mais rápido devido à proliferação de cianobactérias. O camarão responde bem ao calor, mas isso aumenta a carga de nutrientes. Johnson disse que a aeração é essencial para manter o equilíbrio.
O modelo de bioflocos incorpora a água verde, economizando nas contas de eletricidade e garantindo sustentabilidade. “Não há descarga de água com alto teor de nitrogênio no meio ambiente”, afirmou Johnson.
Planos Futuros
Para o futuro, Johnson planeja dedicar 4.000 m² da fazenda para tanques de água verde e alimentação viva. A água e o lodo dos bioflocos serão bombeados para lagoas rasas, promovendo o crescimento de zooplâncton e microalgas, que serão reintroduzidos nos tanques de crescimento para alimentar tilápias e camarões.
“Assim que a fazenda estiver completamente sob controle, pretendo iniciar um incubatório de camarão vannamei com pós-larvas aclimatadas em água doce. Acredito que o cultivo emágua doce é o futuro e sustentável”, concluiu Johnson.












