A aquicultura tem apresentado um crescimento expressivo nas últimas três décadas, desempenhando um papel crucial na segurança alimentar e no desenvolvimento econômico global. A tecnologia de bioflocos (BFT) surge como uma solução promissora para enfrentar desafios críticos da indústria, como o consumo excessivo de água, os altos custos de alimentação e os impactos ambientais.
Por meio da BFT, resíduos são convertidos em bioflocos, que funcionam como fontes naturais de alimento para espécies aquáticas, como peixes e camarões. Essa abordagem sustentável diminui a dependência de ração externa e otimiza o uso de recursos, promovendo maior eficiência e sustentabilidade.
Um estudo recente, intitulado “Biofloc Technology (BFT) in Aquaculture: What Goes Right, What Goes Wrong? A Scientific-Based Snapshot”, publicado na revista Aquaculture Nutrition, apresenta uma análise detalhada dos benefícios e desafios associados a essa tecnologia.
A pesquisa foi realizada por Mohammad Hossein Khanjani, da Universidade de Jiroft, Irã; Moslem Sharifinia, do Centro de Pesquisa de Camarões, Irã; e Maurício Gustavo Coelho Emerenciano, do CSIRO, Austrália.
Conservação de água e impacto ambiental
Os sistemas BFT se destacam por reduzir o consumo de água em até 90%, tornando-se uma solução ideal em regiões com recursos hídricos limitados. Esses sistemas limitam o descarte de efluentes, mantendo a qualidade da água por meio da atividade microbiana e ajudando a mitigar a poluição causada por métodos convencionais de aquicultura.
A capacidade de reutilizar a água após cada ciclo de produção amplifica ainda mais os benefícios ambientais, apresentando a BFT como uma alternativa mais sustentável aos métodos tradicionais, que dependem fortemente da troca de água.
Eficiência alimentar e benefícios econômicos
A tecnologia de bioflocos oferece um impacto significativo na eficiência alimentar, destacando-se como uma solução econômica para a aquicultura. Ao promover o crescimento de microrganismos naturais, a BFT reduz a dependência de rações caras à base de farinha de peixe.
Pesquisas indicam que a BFT pode diminuir as taxas de conversão alimentar em até 40%, reduzindo consideravelmente os custos de produção. Em espécies como tilápias e camarões, foi constatada uma menor necessidade de proteína na dieta, resultando em melhor desempenho no crescimento e maior taxa de sobrevivência em ambientes com bioflocos. Essa abordagem representa uma oportunidade estratégica de economia para os aquicultores.
Maurício Emerenciano, coautor do estudo, destaca: “Este artigo colaborativo fornece insights valiosos, especialmente sobre os aspectos desafiadores da BFT na piscicultura e carcinicultura. Assim como qualquer técnica de aquicultura, o sistema de bioflocos também enfrenta obstáculos.”
Desafios da tecnologia de bioflocos
Apesar dos inúmeros benefícios da tecnologia de bioflocos, ainda há desafios a serem superados para otimizar sua aplicação e garantir viabilidade comercial em larga escala.
Os altos custos operacionais são um dos principais obstáculos, especialmente devido à demanda por equipamentos como aeradores e bombas, que consomem grandes quantidades de energia. Esse fator pode elevar consideravelmente os custos de produção, especialmente em áreas onde o preço da energia elétrica é elevado.
Outro desafio importante é a necessidade de mão de obra qualificada. A operação eficiente de um sistema BFT requer conhecimentos especializados sobre monitoramento da qualidade da água e manejo da dinâmica microbiana.
Além disso, a gestão adequada da microbiota e dos sólidos é crucial. Desequilíbrios podem afetar negativamente a qualidade da água e o desenvolvimento dos organismos cultivados. O acúmulo excessivo de sólidos, se não controlado, pode comprometer a funcionalidade dos bioflocos e aumentar os riscos de doenças no sistema.
O monitoramento intensivo do sistema também é essencial para evitar perdas, demandando tempo e recursos significativos.
Conclusão
A tecnologia de bioflocos oferece um caminho promissor para alcançar maior sustentabilidade na aquicultura. Ela melhora a eficiência da produção, conserva água, reduz a dependência de ração à base de farinha de peixe e minimiza o impacto ambiental.
À medida que a pesquisa avança e as tecnologias se tornam mais acessíveis, a adoção mais ampla da BFT pode se tornar uma realidade, atendendo à crescente demanda global por produtos de aquicultura de maneira mais sustentável.












