Com uma produção de 209 mil toneladas em 2023, o Paraná representa 36% do cultivo anual de tilápia no Brasil, que alcançou 579 mil toneladas no último ano. Graças a uma pesquisa conduzida por professores e estudantes da Universidade Estadual de Maringá (UEM), parte dessa produção pode ser transformada em produtos de maior valor agregado para as indústrias da moda, hospitalar, farmacêutica e alimentícia.
O exemplo mais recente esteve em destaque em dois importantes desfiles de moda no Brasil: a 2ª edição do Santa Catarina Fashion Week, realizada nos dias 25 e 26 de setembro em Florianópolis, e o 58º São Paulo Fashion Week, entre os dias 16 e 20 de outubro na capital paulista. Em ambos os eventos, peças confeccionadas com couro de tilápia produzido pela UEM desfilaram nas passarelas.
As estilistas confeccionaram peças com couro de tilápia produzido pela UEM em parceria com a zootecnista Amanda Hoch, ex-aluna de pós-graduação da universidade e coproprietária da Tilápia Leather, uma empresa especializada na produção de couro de tilápia para sapatos, bolsas e outros artigos de moda.
Amanda contou com o apoio de sua ex-orientadora, a professora Maria Luiza Rodrigues de Souza, do Departamento de Zootecnia da UEM, idealizadora do laboratório de processamento de peles e de pequenos e médios animais da universidade. Inaugurado em 2004, o laboratório é atualmente uma referência em pesquisas sobre a transformação da pele de peixe em couro.
“A Amanda nos procurou para estender o convite. Fizemos o trabalho, passamos para a Mônica Sampaio, que é a estilista que fez o desfile, e a repercussão foi muito grande”, contou Maria Luiza.


Laboratório de processamento de peles da UEM
O laboratório onde a professora Maria Luiza atua está localizado na Fazenda Experimental de Iguatemi (FEI), no distrito homônimo em Maringá. A cada ano, aproximadamente 40 novos estudantes de graduação, além de alunos de pós-graduação e grupos de iniciação científica, utilizam o espaço para suas pesquisas.
Os pesquisadores utilizam diversas técnicas de curtimento em diferentes tipos de peles animais, incluindo outros peixes de água doce e marinha, rãs, coelhos, caprinos, jacarés e avestruzes, entre outros. Os estudos envolvem análises de resistência dos couros processados, testes físico-químicos e físico-mecânicos, além de análises histológicas (ciência que estuda tecidos dos seres vivos) e de microscopia eletrônica.
Para Maria Luiza, o processamento do couro de tilápia representa uma oportunidade econômica para produtores e integrantes da cadeia produtiva. Ela destaca que a pele remanescente da produção de pescado corresponde de 4% a 10% do peso total do peixe.
“Independentemente de onde você vai aplicar o couro de tilápia, seja em calçados, bolsas ou outras roupas e acessórios, ele vai enriquecer o produto e elevar o preço porque se trata de algo diferenciado no mercado”, afirmou a professora.
Além dos eventos de moda, as técnicas de curtimento também já foram apresentadas em eventos científicos internacionais que aconteceram na Argentina, Colômbia, Equador, Itália e México.
Tilápia na medicina e suplementação alimentar
Além do setor da moda, os produtos derivados da tilápia desenvolvidos pela UEM apresentam grande potencial em outras áreas econômicas, especialmente na medicina e na suplementação alimentar com a farinha de tilápia.
Na medicina, a pele de tilápia é conhecida por seu uso no tratamento de queimaduras de 2º e 3º graus, devido às suas propriedades cicatrizantes e de alívio da dor. No laboratório da UEM, esse processo foi aprimorado com a extração do colágeno e a adição de fármacos, resultando em um biofilme aplicado em feridas e queimaduras. Esse curativo biológico hidrata e protege a área lesada, sendo altamente compatível com a pele humana, o que reduz o risco de rejeição e acelera a recuperação.
Já a farinha de tilápia destaca-se como um suplemento alimentar proteico, ideal para atletas e pessoas que buscam uma dieta balanceada. Produzida a partir de partes do peixe geralmente descartadas, como espinhaço e costelas, a farinha passa por cozimento, secagem e moagem, resultando em um produto rico em proteínas, ômega 3, ômega 6, cálcio e fósforo. Testada pela UEM em shakes, pães, bolos e até chips, a farinha representa uma alternativa nutritiva e sustentável, reduzindo o desperdício na cadeia produtiva da tilápia.
De acordo com a professora, as pesquisas e produções com tilápia na UEM são resultado de um trabalho multidisciplinar, envolvendo setores como engenharia de alimentos para a produção da farinha e equipes de histologia e farmácia para o desenvolvimento do biofilme.
Informações Agência Estadual de Notícias Paraná.












