Um estudo inédito da iniciativa FAIRR revelou que a ausência de rastreabilidade total na cadeia de suprimentos de pescados representa um risco significativo para as principais empresas do setor, especialmente frente a regulações mais rígidas, além de questões reputacionais e operacionais. Com o apoio de 35 investidores, incluindo a Nomura Asset Management e a DNB Asset Management, o relatório enfatiza a necessidade de sistemas digitais e interoperáveis que permitam o rastreamento completo da produção de pescados, desde a origem até o consumidor final.
Entre as sete empresas avaliadas, apenas Charoen Pokphand Foods e Thai Union se destacam por possuir compromissos sólidos de rastreabilidade em toda a cadeia produtiva, abrangendo tanto produtos para consumo humano quanto ração para aquicultura. As demais empresas analisadas ainda apresentam falhas que podem expor seus acionistas a riscos significativos.
Lucy Holmes, diretora sênior de finanças azuis do WWF-US, destaca que “a saúde econômica a longo prazo da indústria de pescados está diretamente ligada à preservação dos oceanos. Diante do declínio da saúde marinha causado pela exploração excessiva, poluição e mudanças climáticas, a rastreabilidade na cadeia de suprimentos torna-se essencial para mitigar impactos e gerenciar riscos de maneira eficaz.”
Riscos e oportunidades
O comércio global de pescados supera, em valor, o de carne bovina, suína e de aves combinados. No entanto, a falta de transparência na cadeia produtiva facilita a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (IUU), que representa aproximadamente 20% da captura mundial, gerando prejuízos anuais à economia global estimados entre US$ 15 bilhões e US$ 36 bilhões.
Sofía Condés, diretora de engajamento de investidores da FAIRR, ressaltou que “com 20% do pescado selvagem global ainda proveniente de atividades ilegais, a verdadeira origem do pescado é uma questão central de preocupação.” Ela enfatiza que a ausência de rastreabilidade não se limita a um desafio regulatório, mas representa também uma ameaça financeira e reputacional cada vez maior para as empresas.
Novas regulamentações, como o Food Safety Modernization Act nos Estados Unidos e a Lei de Distribuição de Produtos da Pesca no Japão, exigem que as empresas comprovem a segurança e a legalidade de seus produtos. Paralelamente, iniciativas voluntárias, como a Força-Tarefa para Divulgação Financeira Relacionada à Natureza (TNFD), destacam a rastreabilidade como um elemento fundamental para manter a confiança de consumidores e investidores.
Um chamado à ação
O engajamento liderado pela FAIRR estabeleceu metas ambiciosas para que as empresas implementem sistemas completos de rastreabilidade, alinhados a padrões como o Global Dialogue on Seafood Traceability (GDST).
Eric Usher, chefe da UNEP FI, destacou a importância da iniciativa ao afirmar que “a rastreabilidade é um elemento crucial para assegurar transparência e orientar decisões informadas que impulsionem a sustentabilidade no setor.”
O relatório revela que, embora algumas empresas já reconheçam os riscos da ausência de rastreabilidade, muitas ainda não possuem planos concretos para implementar sistemas digitais interoperáveis ao longo de toda a cadeia produtiva. François Mosnier, da Planet Tracker, reforça: “No setor de pescados, uma alegação de sustentabilidade sem uma rastreabilidade sólida tem pouco valor. É hora de ações concretas, não apenas de promessas.”
O futuro da rastreabilidade
Com o avanço para a segunda fase do engajamento em 2025, a FAIRR planeja expandir a iniciativa para novos investidores e intensificar o suporte técnico às empresas. Isso será fundamental para impulsionar a adoção de sistemas robustos e medir o progresso anual das companhias rumo à transparência total.













