O comportamento dos peixes, fundamental para seu bem-estar e desempenho na aquicultura, é fortemente impactado pela qualidade da água. Um estudo publicado na Reviews in Aquaculture, realizado por especialistas da Universidade de Zhejiang (China), FishEthoGroup (Portugal), Universidade Ben-Gurion (Israel) e Universidade Wageningen (Países Baixos), examinou como fatores físicos, químicos e poluentes emergentes afetam padrões comportamentais essenciais.
João Saraiva, presidente do FishEthoGroup e coautor do artigo, destaca: “Neste estudo, conseguimos catalogar de forma abrangente as consequências comportamentais das principais alterações na qualidade da água. Observamos como essas mudanças não apenas afetam o comportamento, mas também comprometem o bem-estar dos peixes.”
Mudanças na temperatura e na turbidez da água exercem forte impacto na dinâmica dos cardumes e no comportamento alimentar dos peixes. Oscilações térmicas significativas podem modificar padrões de natação e dispersar os cardumes, reduzindo a proteção coletiva. Em ambientes com elevada turbidez, a visibilidade reduzida dificulta a busca por alimento e prejudica as interações sociais, afetando o crescimento e a saúde dos peixes de forma negativa.
Parâmetros químicos e suas implicações
Oxigênio dissolvido, salinidade e pH são determinantes para o equilíbrio metabólico e sensorial dos peixes. Níveis insuficientes de oxigênio podem levar à diminuição da atividade e ao aumento de comportamentos relacionados ao estresse, enquanto variações bruscas de salinidade impactam a reprodução e a resposta a predadores. O pH fora da faixa ideal compromete a capacidade olfativa, essencial para localizar alimentos e evitar predadores.

Poluentes emergentes
Microplásticos e resíduos de petróleo foram identificados como poluentes altamente nocivos ao bem-estar dos peixes. Essas substâncias alteram os sistemas sensoriais e elevam os níveis de estresse, prejudicando o comportamento adaptativo dos animais.
“Além dos parâmetros de qualidade tradicionais no contexto da produção aquícola, incluímos nesta análise formas de poluição como microplásticos e petróleo bruto (crude), que influenciam a produção em águas abertas. Isso nos permitiu criar um catálogo abrangente de indicadores comportamentais para identificar problemas na qualidade da água, complementando as medições diretas desses parâmetros,” explica João Saraiva.
Em sistemas aquícolas localizados próximos a áreas urbanas, onde esses poluentes são mais comuns, os impactos podem ser ainda mais graves.

Monitoramento e manejo para práticas sustentáveis
Por fim, o estudo destaca a importância do monitoramento contínuo e do uso de tecnologias avançadas para garantir a qualidade da água nos sistemas de produção. Estratégias que incluam a adaptação dos sistemas produtivos às características ambientais específicas podem melhorar significativamente a produtividade e o bem-estar animal, contribuindo para uma aquicultura mais sustentável.












