Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto de Biologia, está à frente de uma pesquisa que investiga o papel dos microrganismos na aquicultura, uma atividade que movimenta mais de 130 milhões de toneladas de pescado anualmente.
O estudo, intitulado “Entendendo o papel de microrganismos na saúde e doença de organismos aquáticos da aquicultura”, foi realizado em parceria com a Ocean University of China e publicado na revista Marine Life Science & Technology, voltada para cientistas que pesquisam biologia marinha.
A aquicultura, que engloba a criação de peixes, crustáceos, moluscos e algas em ambientes controlados como tanques e reservatórios, superou a pesca como uma das maiores atividades do setor marinho.
Atualmente, ela responde por aproximadamente 51% da produção mundial de animais aquáticos. Segundo Felipe Landucci, professor adjunto do Instituto de Biologia da UFRJ e um dos autores do estudo, a produção global de pescado chegou a 223,2 milhões de toneladas, com a aquicultura sendo responsável por 130,9 milhões de toneladas desse total.
O estudo, que contou com a colaboração de 16 cientistas de diversas instituições nacionais e internacionais, traz novas perspectivas para a sustentabilidade e a rentabilidade do setor. Desse grupo, mais da metade são professores e pesquisadores da UFRJ, como Fabiano Thompson, Mateus Thompson, Michele Lima, Cristiane Thompson, Leonardo Bacha, Wanderley de Souza e Tatiana Silva.
Participaram da pesquisa representantes da Universidade Federal de Santa Catarina e nomes internacionais do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, de Portugal; da Universidade Estadual do Mississippi, dos Estados Unidos; e da Unidade Acadêmica de Mazatlán em Agricultura e Gestão Ambiental, do México.
A pesquisa inova ao explorar como os microrganismos podem deixar de ser uma ameaça à produção aquática e se tornarem aliados dos produtores, especialmente no controle de doenças que se espalham rapidamente em ambientes aquáticos confinados. Felipe explica que as novas tecnologias, como o uso de microrganismos vivos, têm o potencial de reduzir a dependência de antibióticos.
Redução na mortalidade
A utilização de probióticos e vacinas se destaca como uma das principais estratégias para evitar o uso excessivo de antibióticos e, ao mesmo tempo, reduzir a mortalidade dos organismos marinhos. A qualidade da água, da ração e a genética dos peixes também são fatores essenciais para o sucesso da aquicultura.
Wagner Camis, zootecnista e proprietário do pesqueiro Recanto Sol Nascente, destacou que o foco deve ser na criação de um ambiente saudável, e não apenas no cultivo de peixes: “Com o uso de probióticos, o peixe se desenvolve melhor, sem precisar gastar energia se defendendo de doenças.”
O estudo também aborda a crise climática como um dos maiores desafios para a aquicultura. O aumento das temperaturas, que reduz os níveis de oxigênio na água, exige soluções inovadoras, como o cultivo de algas e estratégias de baixo carbono. Esses métodos ajudam a mitigar os impactos das mudanças climáticas, promovendo uma aquicultura mais resiliente e sustentável.
Segundo Wagner, os avanços tecnológicos permitiram reduzir drasticamente a mortalidade no seu pesqueiro, que antes chegava a 35% devido a doenças como os estreptococos. Hoje, essa taxa caiu para apenas 5%.
Expansão da aquicultura no Brasil
No Brasil, a aquicultura está em crescimento, impulsionada pela demanda por produtos sustentáveis e pelo interesse crescente da comunidade científica. Felipe Landucci destaca que a atividade vai além da produção de alimentos, contribuindo para serviços ecossistêmicos, fixação de carbono e proteção costeira. Ele também observa o aumento do interesse acadêmico na área: “O que antes era uma turma com quatro alunos, hoje conta com 18, mostrando o crescimento e a competitividade do setor.”
Com inovações tecnológicas e uma maior conscientização sobre a sustentabilidade, a aquicultura no Brasil e no mundo está se consolidando como um dos setores mais promissores da economia global, com um horizonte cheio de oportunidades e desafios.
Com informações da UFRJ.












