Um estudo recente intitulado “Fish welfare in farms: potential, knowledge gaps, and other insights from the fair-fish database”, publicado na Frontiers in Veterinary Science, oferece uma análise abrangente sobre os fatores que influenciam o bem-estar dos peixes em sistemas de criação.
Conduzido por pesquisadores da Associação FishEthoGroup em Portugal e do Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp), o estudo apresenta tanto avanços como desafios e lacunas de conhecimento sobre o bem-estar de espécies de peixes cultivados.
Fair Fish Database: guia para a avaliação do bem-estar aquático
O Fair Fish Database é uma plataforma pioneira no mapeamento das condições de bem-estar de peixes em sistemas de aquicultura. Organizando o conhecimento etológico em perfis de espécies, o banco de dados avalia critérios de bem-estar que incluem aspectos como reprodução, respostas ao estresse e práticas de abate.
A plataforma é organizada em torno da ferramenta WelfareCheck, que classifica os indicadores de bem-estar considerando a probabilidade, o potencial e o grau de certeza de que os peixes atinjam um bom estado de bem-estar em ambientes de cultivo.
Entre os 10 critérios avaliados, que incluem faixa de profundidade, padrões de migração, reprodução, comportamento de agregação, comportamento agressivo, necessidades de substrato, respostas ao estresse, taxas de malformação, manipulação e estresse, além de protocolos de abate, o estudo destaca a reprodução, o uso de substratos e as práticas de abate como áreas com alto potencial de melhoria. A pesquisa sugere que respeitar as necessidades reprodutivas naturais dos peixes e adotar práticas humanitárias de abate pode contribuir significativamente para o bem-estar em sistemas de aquicultura.

Principais desafios e lacunas de conhecimento
A análise dos dados disponíveis revelou diversas lacunas de conhecimento sobre o bem-estar dos peixes criados em cativeiro. Questões como o comportamento agressivo e os padrões de agregação foram destacados, apresentando alto nível de incerteza e, muitas vezes, dados contraditórios, o que dificulta a implementação de práticas de manejo mais eficazes.
Além disso, o estudo revela uma necessidade de dados mais confiáveis sobre o impacto do estresse e as práticas de manipulação, fatores frequentemente associados a prejuízos no bem-estar dos peixes devido ao manuseio intenso que ocorre na aquicultura.
Os autores destacam que a diversidade de espécies criadas e a variabilidade de suas necessidades comportamentais e fisiológicas representam um desafio significativo para o setor. A escassez de dados sobre o uso de substrato e taxas de deformidades reforça a importância de uma investigação mais profunda nesses aspectos para melhorar a saúde e o bem-estar dos peixes nas fazendas.
Avanços em práticas de manejo: reprodução e abate humanitário
O estudo também destaca que práticas voltadas à reprodução e ao abate humanitário apresentam um grande potencial de melhoria. O fornecimento de substratos, por exemplo, pode replicar elementos dos ambientes naturais dos peixes, incentivando comportamentos mais saudáveis e contribuindo para a melhoria do bem-estar. Ainda, práticas de abate humanitário foram apontadas como fundamentais para uma criação mais ética e sustentável.
De acordo com os pesquisadores, a reprodução em condições que respeitam o comportamento natural dos peixes é frequentemente considerada um indicativo de boas condições de bem-estar. O estudo sugere que ajustes na criação, como a introdução de substratos adequados, poderiam promover melhorias significativas no bem-estar ao estimular comportamentos naturais, além de favorecer a qualidade de vida dos animais.

Necessidade de mais estudos e dados consistentes
Apesar dos avanços descritos, os pesquisadores ressaltam que ainda há muito a ser investigado sobre o bem-estar de peixes em aquicultura. A falta de clareza sobre temas como agressão e estresse indica que são necessários mais estudos para compreender melhor o comportamento dos peixes em condições de cativeiro.
Práticas de manejo que levem em consideração o comportamento natural e as necessidades específicas de cada espécie são fundamentais para assegurar um ambiente mais saudável e sustentável.
O estudo reforça que um dos desafios no setor de aquicultura é lidar com a grande variedade de espécies e suas diferentes necessidades comportamentais e fisiológicas. Com isso, os pesquisadores apontam que o desenvolvimento de novas tecnologias e métodos de avaliação são fundamentais para garantir que as condições de criação atendam de maneira mais precisa às necessidades naturais dos peixes.












